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A adolescência foi uma fase na minha vida que me foi tirada. Obrigaram-me a saltar para o outro lado da margem e a queda? Bem, podia ter sido pior … podia ter morrido! É assim que penso, morrer é pior e na verdade, é. Venho por este meio contar a minha história de vida e não venho em busca de glória ou da pena das outras pessoas, apenas com intenção de divulgar que 'ninguém está a salvo' e que 'não se pode confiar em ninguém, sem ser em nós próprios'. Como já referi, era pura e inocente! Vestidinho branco, sabrinas, cabelo imaculado, comprido e de cor de mel. Ainda hoje, sinto o toque dele nos meus cabelos e revejo o olhar confuso do Jen. Eu acreditei que ele me amava e ainda hoje, acredito. E porquê? Ele protege-me. Agora, chamem-me louca mas é verdade, neste azar encontrei o amor … um amor que é imprevisto! Ninguém poderia acreditar e apenas acharia que era apenas amor da parte da dançarina de cabaret chamada Cassie e na verdade, eu vi-a como ele me olhava e vi o seu olhar de sofrimento quando ele me entregou ás mãos do pai. Por vezes, tenho estes momentos embriagados em que acredito piamente que o Jen me ama e quando o efeito passa, teço um ódio irracional por ele pois ele simplesmente, foi o culpado e principalmente, o ladrão da minha adolescência, dos meus sonhos e for fim e não com menos importância, do meu corpo. O dia acaba e sinto nojo de mim mesma e nem mil banhos me tiram a sensação de sujidade e na verdade, é a minha alma que está suja e poluída. Prometi a mesma que apenas dançaria mas quando o dinheiro começou a faltar, fiz o pior que se pode fazer – traí a minha palavra! O pior não era de facto fazer sexo e ser paga por isso mas sim porque fiz uma promessa a mim mesma e as circunstâncias da vida, fizeram-me quebrá-la! Não culpo de todo o que me rodeia pois sei bem que quota parte da minha desgraça é minha e a outra é o do Jen, o homem que eu amo. Há dias em que tento persuadi-lo a ajudar-me a fugir mas ele é tão submisso ao pai, tanto ou mais que eu, sendo que a única diferença é que, sou submissa ao Jen e nunca lhe cobrei dinheiro pelos momentos que passávamos juntos ás escondidas do pai porque os sentimentos não têm preço e o corpo de uma mulher é um preço negociável. E eu sei o meu preço, sei o quanto o meu corpo é desejado. Sei que umas roupas menores ajudam a umas gorjetas simpáticas e também sei que o cabelo solto a libertar o seu cheiro é um ponto extra para os pervertidos mas é preciso ter cuidado porque mesmo neste antro eu não estou a salvo. Já fui alvo de situações em que o controlo passou a ser de quem paga e quando assim é, nunca sabemos o que esperar. E já não é a primeira vez em que sou espancada porque há homens para tudo e nunca sabemos o que são até o mostrarem mas em todos estes momentos, fui salva pelo Jen. Não poderíamos apresentar queixa contra os clientes porque eram habituais e principalmente, porque o cabaret fecharia. À luz do dia é um bar com decoração estilo cabaret em que até pais respeitosos de famílias de classes altas frequentam para o café da manhã pois fica a 5 minutos do trabalho. À noite, o bar Energia têm dançarinas mas esconde os quartos na cave. Separados por paredes e equipados por camas de casal e não poderiam ser decorados de outra maneira: colchão de cetim vermelho (que cliché), mesas de cabeceira estilo Manuelino que escondem as mais diversas fantasias e por fim, não muito importante, o véu que cai sobre a cama, dando a sensação de um sonho de princesa mas na verdade, é só para maravilhar a vista de quem paga pelo corpo das melhores bailarinas do Energia. Não era a única a ter o mesmo serviço. Ao todo, éramos dez raparigas. Todas diferentes mas com a mesma história: seduzidas pelo Jen e retiradas aos pais mas só eu, a Cassie é que não deixou de o amar. Quando passei a viver nas mãos deles, havia duas raparigas da mesma idade que eu. A Lila e a Shelly. Tinhamos o mesmo sonho: dançar ballet. Desde que nos vimos pela primeira vez que nos apoiamos incondicionalmente e quando conseguir sair daqui, caso saía sozinha, nunca as deixarei para trás! Prometemos entre nós que voltaríamos para buscar quem, de nós ficasse para trás. A Lila era muito bonita. Alta, corpo esbelto, olhos grandes e azuis, cabelo preto e liso. Uma deusa. O coração do homem que a vislumbra-se batia mais depressa ao vê-la dançar. A Shelly, bem a Shelly tinha traços russos, os quais herdou do avô e possuía um cabelo dourado, um sorriso que nos transmitia mistério e curiosidade e além disso, uma cor branca que ela não gostava muito e que em segredo, disfarçava com blush. Além da sua beleza invejável, é uma mulher inteligente e dotada de um humor negro enquanto que a Lila é a típica mulher que fantasia e adora contos em que começam com o típico 'Era uma vez' e acabam com o 'Fim' e há anos que ela me confidencia que sonha e ansia com toda a sua força interior pelo beijo do príncipe encantado que a retirará deste sono profundo em que é uma bailarina de cabaret e paga pelo sexo. Eu, Cassie sou a mais realista e porque sei que quando sair deste lugar será por mérito próprio e não porque um homem me salvou das garras do lobo mau pois acredito piamente que por baixo da pele de cordeiro, vive um lobo mau. Partilho do mesmo tipo de humor com a Shelly, o que faz com que partilhemos mais e não pondo de parte a Lila. Os turnos por vezes, são diferentes e à vezes em que enfrentamos a noite completamente sozinhas e apenas temos que contar connosco e é nessas noites que o meu ódio por ti aumenta, dear Jen. É nestas noites em que tenho momentos de fraqueza e lágrimas borram a pintura e contornam as minhas bochechas de menina. Batem à porta, é o Jen. Avisa-me que o meu melhor cliente chegou. Está na hora de corrigir a maquilhagem, responder com a voz limpa que « se ele me quer, que espere », salientar o decote e praticar o sorriso, o olhar sedutor ao espelho e puxar pela auto-confiança que entretanto me fugiu, puxar por ela e colocá-la a cem por cento. Estava na hora de colher o que me obrigaram a plantar. »
[inventado e continuará]

1 comentário:
Excelente notícia que continuará! :)
Raramente vejo escritos ousados como este atual, apenas coisas românticas, ou do cotidiano, apenas simples histórias adolescentes e eu gosto destas assim Cassandra. Com uma forte realidade, se continuares assim e detalhares mais, ficará cada vez mais interessante.
Ansioso pelos próximos capítulos. Muito ansioso.
Obrigado pelos teus comentários e sim, concordo com tudo o que dizes, excepto a respeito dos gatos, por vezes, confundimos independência com egoísmo. Penso que eles apenas são independentes e não submissos como os cães. Em verdade, adoro todos os animais, excepto os "racionais". Vá lá, há alguns racionais que até me agradam, mas não superam em fidelidade aos "irracionais".
E sobre sonhos, alguns estão em stand by mesmo, por depender das circunstâncias e, assim que se tem a chance de mudá-la, seria bom. Mas nem sempre acontece.
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