sábado, setembro 24

Um sonho?


Sempre tive aversão ás pessoas. Correcção, as pessoas sempre tiveram aversão a mim até que alguém não teve medo de se aproximar, de me conhecer, de tirar cada camada como se faz a uma cebola e de cada camada que saía, eu dava-me a conhecer e chorava e fazia esse alguém que teve coragem de me encontrar, chorar.

Ele: Porque afastas as pessoas?
Eu: Já pensaste que se calhar são as pessoas que se afastam de mim!? Que não sou boa o suficiente para elas? Que sou demasiado complexa para aquele mini-cérebro?
Ele: Não és demasiado complexa para mim.
Eu: Sabes porquê?

Ele não estava à espera daquela pergunta. O « porquê » é difícil de responder e por vezes, nem resposta têm.

Eu: Eu logo vi. Acho que é por seres igual a mim. Também és um solitário nato.
Ele: Não sou nada! Não sou! Não podes afirmar tal disparate sobre mim. Não me conheces!
Eu: Conheço-te melhor do que ninguém, my friend
Ele: Então quem é que eu sou?
Eu: És eu
Ele: Como assim, sou tu? Isso é impossível! Estou cansado dos teus rodeios e meios-termos. Diz de uma vez o que queres dizer!
Eu: Eu gosto de meios-termos.

Proferi esta frase palavra a palavra e sublinhei o ‘gosto’ e Ele não gostou. Virou-me as costas. E eu segui o meu caminho.

Estou farto daquela sua maneira de estar superior. Afasta-me dela. Caramba, sou o seu melhor amigo, porque raios há-de ela de ser assim comigo!? Talvez por nunca ter tido ninguém tão próximo dela como eu e Ela não aprendeu a como reagir, tratar, lidar com situações assim. Sempre foi Ela e Ela. Porque raios ela disse que eu era ela!? Não percebo. Será que quis dizer que também eu sou assim? Solitário como ela. Se calhar daí nos darmos tão bem mas mesmo assim acabamos sempre por chocar e dar cabo de tudo. Vou voltar atrás. Quero pedir-lhe desculpa. Virei as costas e ela já não estava onde a deixei. Esperavas o que !? Ela faz o que quer e não espera por ninguém!

As lágrimas escorriam. Não faço ideia porquê. Ele simplesmente virou-me as costas e foi pior do que a ignorância que sentia por parte do desconhecido que desconhecia e do desconhecido que me desconhece. Ok, isto é confuso. Vou simplificar: o facto de ele ter conseguido conhecer-me foi mais do que as pessoas que passavam por mim e me ignoravam e essa ignorância não me magoava e esta ignorância de alguém que nos é muito importante, magoa e comprime-me o coração. Que raio é isto? Eu deveria só, apenas, importar-me comigo. Apenas Eu e Eu.

De repente, acordo.

Meus olhos percorrem pelo teto branco, logo movem-se para os lados, a escrivaninha, o computador, o televisor e num movimento súbito, elevo meu corpo e encontro-me sentada em minha cama.
Passo a mão pela testa, suada, posso ouvir minha respiração ainda ofegante e as batidas de meu coração que parece que vai saltar por minha boca afora.

Um pesadelo. Sinto um forte alívio e sorrio. Tudo não passara de um pesadelo.

Meu sorriso é breve e dá lugar a uma expressão de seriedade em meu semblante. Teria este sonho algum sentido? Sempre fui cética a respeito de sonhos premonitórios, mas havia dentro de mim uma pequena credibilidade de que certos sonhos eram frutos de nosso inconsciente.
Melhor era levantar-me de vez e escovar os dentes. Não teria tempo de tomar café, o relógio já acusava meu atraso para o colégio.

Tomei o maior susto de minha vida ao deparar-me com aqueles enormes olhos verdes, fitando-me, toda descabelada, de pijamas, no meio do quarto e com cara típica de quem acabara de acordar. E de um mal sonho. Um mal sonho que materializava-se a minha frente. Como seria possível? Como…

Ele: Tens razão. Sou tal como tu.
Ela, atordoada, tentando ajeitar os cabelos desgrenhados: Han? O que dizes?
Ele: Sabes bem. Não adianta fazer-se de desentendida agora. Desculpe-me pela fuga, penso que não estava preparado para assumir a verdade. Fui covarde. Perdoa-me.
Ela: Ainda não te entendo…
Ele, impaciente: Como não? Quero que saibas que agora tenho toda a certeza a respeito de tudo. As pessoas afastam-se porque não suportam nossa maneira de ser, pessoas como nós, não são feitas para medíocres.
Ela: Continuo não entendendo o que dizes…
Ele: Somos iguais. Somos um. Com uma única diferença…

Assustada, mal podia acreditar ao sentir seus braços enlaçando-se em meus quadris e puxando-me para perto de seu rosto não com força, mas com firmeza.

Ele: Não gosto de meios termos.

E não hesitou em beijar-me a boca, devagar, logo, audaciosamente. Simplesmente deixei-me levar por aquele beijo. O mal sonho acabava de materializar-se. Corrigindo-me, o sonho.
Se não estava materializado, se era um sonho, apenas não queria mais acordar.

Texto escrito já algum tempo e que estava publicado no outro blogue; por Cassandra e Christian V.Louis

4 comentários:

łnn Gray ۞ disse...

Texto lindo *-*

Sophie disse...

Como dizes no "About Cas´s shit" eu diria awesome shit! :D Muito bom mesmo! :D Concordo com o que falaste da adversão: muitas vezes as pessoas é que têm adversão a nós e não ao contrário :) Os meus parabéns! Obrigada pelo comentário e tens razão... eu sempre pensei que o cemitério era um local de reflexão e não um local para falar mal das outras pessoas :)

Sophie disse...

De nada! ^^ Tipo depois do código não colocas em HTML. Vais a design e adicionar código, como se faz para colocar vídeos do youtube, e já está! não precisas de fazer como lá diz até porque aquilo está predefinido para o tumblr!

Unknown disse...

Este posso dizer, sem hipocrisias, que é um dos textos o qual participei de que mais me orgulho. Creio que temos uma química incrível para escrevermos juntos.