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Chega de falar sobre a minha vida de noite. Hoje é sobre a minha vida de dia, sim porque eu vivo também de dia. Normalmente, as minhas noites acabam as 6 das manhã. Recebo o dinheiro do último cliente, deixo-o a dormir na cama de um daqueles quartos apenas separados por paredes (que não impede que o som se propague criando assim um ambiente um pouco ou tanto constrangedor) e obrigo-me a não olhar para trás. Dirijo-me para o meu apartamento que bem, digamos é por cima do Energia. Partilho com a Lila e a Shelly. Enfio a chave na fechadura, rodo devagar e tento abafar o som da porta, elevando-a pois odeio o som que ela faz mas foi em vão. Para mim, pareceu que fez um barulho enorme mas na verdade, foi mínimo. Pareceu enorme porque a casa estava num silêncio habitual a esta hora. A Lila ainda dormia na cave e a Shelly tinha ido fazer serviço domiciliário por isso, estava sozinha em casa. Eu fazia questão de sair da cama assim que o cliente adormecesse, acho que era demasiado acabar por adormecer com ele porque na verdade, é isso que se faz quando sentes e eu não sentia e daí abandonava o local. Éramos constantemente vigiadas caso tentassemos fugir mas quando não mostrávamos nenhum interesse em fugir e aparentavamos gostar do que faziamos ainda agradecendo falsamente ao Chen, ganhávamos pontos extra e eramos apenas observadas à distância e por vezes, até éramos deixadas sem vigia. O nosso apartamento era simples. Três quartos, sala, cozinha, uma casa de banho em cada quarto. Entravamos e dávamos logo com a sala de estar e depois desta havia um balcão que separava a sala da cozinha. À esquerda, havia um corredor e o primeiro quarto à direita era o da Lila, o da frente o da Shelly e o meu era do lado esquerdo mas ficava mesmo no fim do corredor. Eu gostava do meu quarto. Assim que entrava, do lado direito encostado à parede um conjunto de gavetas sobre comprido castanho e por cima, um espelho colado à parede. Em frente, tinha uma cama de solteira completamente normal, colcha branca de verão. Um puff ao lado do armário e por cima deste, toda uma gama de cremes e maquilhagem. Do lado esquerdo, o armário. Sapatos, fantasias, roupas mais ousadas e até mesmo roupas normais, demasiado normais que criava um contraste entre a minha vida da noite e a minha vida do dia, quase que dava para acreditar que eu era duas pessoas ou que teria dupla personalidade mas não, era apenas o meu trabalho. Uma mesa de cabeceira em cada lado da cama e do lado direito, uma janela com vista panorâmica para uma imensa floresta. Esqueci de mencionar que o Energia fica na orla de uma densa floresta na zona de Sintra. Muito pacato mas nem por isso, deixa de ser um local em busca de um calor humano quando em casa a mulher falha e andar à procura dá trabalho e então, vai-se ao Energia. Arrastei-me pela casa, estava cansada mas isso não me impediu de me enfiar na banheira … precisa de me limpar, na verdade, era tentar porque a cada cliente a minha alma tornava-se mais suja. Depois do banho, embrulhada na toalha dirigi-me para a sala. O meu corpo estava cansado mas tinha a minha mente completamente desperta, algo que não é normal. O normal é adormecer em cima da cama embrulhada na toalha e ainda com o cabelo por pentear e hoje, isso não aconteceu! Liguei a televisão e o silêncio naquela casa quebrou-se.Preparei algo para me restituir a energia perdida e assim que me vi de estômago cheio adormeci a ver os anúncios ininterruptos pela manhã.
Saí de casa de um deputado importantissimo com uma gorjeta bem volumosa para me calar. Não seria dificil bastava a quantia certa. A Cassie decerto que já está em casa, metida no sofá embrulhada numa toalha de banho! Aquela rapariga não é normal. Encontro-a todos os dias naqueles preparos e não consigo evitar um sorriso ao ver a sua preguiça em colocar um pijama. Aposto que a Lila como sempre ficou a dormir na cave. Aquelas camas aumentam-lhe o sonho de um principe encantado, acho que é por isso que ela acaba por ficar lá. Sem elas, eu estaria completamente perdida e desorientada. Apoiamo-nos no momento mais dificil da vida de cada uma e acho que isso foi vital para que nenhuma de nós comete-se alguma loucura que nos levaria á prisão e na pior das hipóteses e a que era mais provável de acontecer: a morte.Uma vez tentei fugir. Ainda não confiava nelas e tentei fugir sozinha. Era noite de lua cheia e o Energia estava cheio de gente e supostamente, o meu turno já teria acabado. Subi ao apartamento e enchi uma mochila com os elementos essenciais incluindo alguma comida e saí rumo ao denso interior da floresta. Estava realmente escuro e caminhava cuidadosamente para que não caisse em falso e acabasse por me aleijar até que, mais ou menos quinze minutos depois ouço o meu nome. “Shelly, sua filha de uma grande puta! Onde estás? Sabes bem que aqui te perdes! Volta e assim não te magoarei!” - quando ouvi a voz inconfundível de Chen o meu corpo respondeu em meros segundos. Comecei a correr de lanterna na mão. O plano era caminhar na orla da floresta perto da estrada mas como era perseguida que nem um coelho decidi aventurar-me pela imensa floresta. Sabia que quando encontrasse um casarão abandonado e segui-se o caminho pela direita iria ter junto à Estrada Principal e quando aí chegasse iria arranjar boleia para bem longe dalí. Corri até os meus músculos começarem a darem sinais de cansaço e estava com a adrenalina no máximo e atenta ao mínimo barulho e vozes que ficavam para trás. Ouvi o Jen - “ Então, Shelly? Sabes bem que não consegues! Nós havemos de te encontrar e aí irás sofrer as consequências! “ e então ao ouvir a sua voz rouca e umas luzes perto do Àrvore velha, decidi criar um rasto falso! Deixei o cachecol nuns arbustos e segui o caminho contrário. Eu não podia voltar para lá, não podia simplesmente! Tinha dezasseis anos. Não me arrependo da minha tentativa falhada pois sei que por horas, por momentos consegui fugir das mãos deles. Calculei que eles conhecessem bem a floresta e por isso, decidi não parar. Até que cheguei á Estrada. Era aquela hora que todos voltam para casa depois de uma noite de copos e bem, ninguém me quis dar boleia. Fazia sinais e por momentos, virei as costas á estrada. Não senti o carro a chegar. Apenas uma pancada na cabeça tão forte que me fez cair redonda no chão e a voz de Chen. Acordei amarrada na cave a uma cadeira. Estava apenas em roupa interior. Com dificuldade, abri os olhos e levei com um balde de água fria que me fez enrijecer os músculos. Gritei. “Cala-te sua puta. Estou farta de ti!”, disse Chen bastante irritado, “Se sou puta, é porque me obriga seu porco de merda!”, cuspi-lhe para os pés e de seguida, levei um estalo que me virou a cara. As lágrimas teimavam em cair por causa da dor mas prometi a mim mesma não chorar e assim foi. As lágrimas que chegaram a cair secaram e não cairam mais. Estive um dia naqueles preparos e quando pus os pés em casa eram 11 da noite do outro dia. Cabelos emaranhados, nódoas negras, olho direito inchado, garganta dorida de tentar gritar e tratei de mim naquela noite. Nem um hospital! Aquela noite foi a pior da minha vida e foi aí que decidi cobrar sexo porque assim daria mais margem de manobra e bem, ganhava mais dinheiro para que um dia, com um plano como deve ser, pudesse acabar por sair daquele antro de maldade e crueldade e ter a vida que na verdade, merecia! »
[inventado e continuará]

2 comentários:
Wow! Adorei este episódio, fiquei sem piscar enquanto lia.
Ficou muito interessante o início, a comparação entre as roupas do dia e as da noite, como se fosse para provar a sociedade que alguém que tenha esta vida, não tem apenas esta, ou apenas tenta não tê-la, como é o caso da tua personagem.
Desta vez vi que detalhou bastante as descrições, mas não ao ponto de ficar cansativa. Simpatizei-me bastante com a personagem Lila e gostaria que ela se desenvolvesse nesta história se fosse possível.
A segunda parte foi tensa, a correria pela floresta e a má sorte que teve por ter sido agarrada por Chen. Mesmo estando em um estado crítico, ela não se entregou e enfrentou-o de cara, mesmo sendo o pior dia de sua vida, não se deixou sucumbir.
É uma personagem forte, realista e que acredito, batalhará muito para ter outro tipo de vida.
Meus parabéns por este episódio Cassandra, está melhorando a cada parte.
Wow! Nem sei por que razão ainda não tinha lido! :O Já te tinha dito que noto uma evolução muito positiva na tua escrita? Já para não dizer que é das coisas mais originais que li? Achas que alguém escreveria sobre este assunto! Oh Meu Deus! Eu quero mais! É desumano, verdade. No entanto, os humanos gostam de tragédia e eu também porque sou humana, logicamente haha não ligues a partes deste comentário xD Chen... esse Chen meteu-me nojo. Se tivesse uma arma em minha mão era capaz de lhe dar algum uso ;) AMei, Amei e Amei! Espero a continuação! um beijinho!
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