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Era noite do dia das Bruxas. A Cassie e Shelly já tinham saído. Esta noite, excepcionalmente, atrasei-me. Não era uma noite como as outras porque o dia seguinte é feriado e então o Energia, enchia-se de homens à procura da sua fantasia em forma de mulher. Naquele ano como todos os outros, vesti-me de branco e não estava realmente assustadora mas sim, sexy e sentia-me bem porque retratava aquilo que restou da minha adolescência. A pureza ditada pelo branco misturada com a sensualidade do meu trabalho no tamanho da roupa. Vi-me ao espelho uma última vez e saí do apartamento. Como flutuando no ar, desci cada degrau em cima dos meus saltos monstruosos e senti-me observada. Olhei em redor e fixei o meu olhar na floresta. Sempre me senti segura neste ambiente e agora devido á situação em que estou metida, sinto medo da floresta e ao mesmo tempo um fascínio por ela. Já dentro do Energia, o calor humano aumentou. Dirigi-me a uma entrada por trás do palco e cumprimentei cada rapariga. Estavam todas a dar os últimos retoques. De repente, ouve-se um som característico do microfone e uma voz austera e forte, « Boa noite, gentlemans! Hoje como tema teremos as nossas dançarinas vestidas das mais diversas fantasias! So enjoy it! » gargalhando no fim, o Chen. Houve um clamor de palmas. Entramos no palco e deixamos um pouco da nossa dignidade nele.
O bar estava a fechar. Levava os sapatos na mão, já não aguentava tê-los nos pés. De repente, sou abordada por um grupo de homens que se encontrava à entrada do bar, completamente bêbedos. “Então, querida?! Eu via-te melhor de costas!”, exclamou o mais velho, completamente de olhos revirados e ar rebarbado. Aconcheguei-me ao casaco que tinha e tentei seguir o meu caminho sem os olhar mas de repente, o mais novo agarra-me pelo braço e proclama, por entre soluços: “Quanto levas?”. Dei-lhe um estalo. Os outros alvoraçaram-se e começaram a chamar puta , vadia, cabra. Rodearam-me e começaram a tocar-me. Tentei gritar. Nesse mesmo instante, levei um soco que me pôs a deitar sangue do lábio e perdi o equilíbrio. Numa tentativa desesperada de defesa, atirei os sapatos ao grupo mas nem isso os fez afastarem-se. Ouço um som característico de séries policiais. Um tiro. Paralisei completamente e ainda cambaleante do soco, caí. Eles dispersaram. Senti uns braços fortes e cheiro a terra molhada. Apaguei mas ainda senti que estava a ser levada para algum lado. Na manhã seguinte, acordei rodeada pela Cassie e pela Shelly. “Então, que merda aconteceu ontem?” proferiu a Shelly com cara de ensonada. “ Vieram aqui deixar-te, Lila!”, disse a Cassie, enquanto a Shelly continuava com as suas perguntas. Tentei responder mas doía-me imenso o lábio. Proferi apenas ‘bêbedos’, ‘atacaram-me’, ‘soco’ e ‘um homem’. Elas entenderam com estas meias palavras. Já sabiam o que a casa gasta! Nunca soube quem me trouxe para casa. Elas não souberam descrevê-lo. Nunca me interrogaram sobre essa noite e foi quase como se não tivesse acontecido, excepto o meu lábio inchado para o comprovar. Ainda hoje, após 2 anos, procuro esse homem e o cheiro a terra molhada. Ele bem podia ter me violado ou assim mas decidiu deixar-me em casa e tomar conta de mim. Salvou-me a vida e é algo, que neste mundo, é raro encontrar! Elas sempre gozaram comigo e diziam no tom de gozo ‘O teu príncipe encantado deixou-te! Nunca o irás encontrar’ mas nunca perdi a esperança tal como nunca deixei de acreditar que há excepções e nem todos escolhem ser maus! Claro que com o tempo essa minha esperança foi-se perdendo e o facto, de ainda continuar neste antro, só ajudou a constatar de que todos praticam o mal e o bem só é praticado por quem quer. »

4 comentários:
Adorei! Fico ansiosa por mais!
ADORO!
Tens uma imaginação incrível, está muito real e impressionou-me.
Vou acompanhar a estória.
ADORO!
Tens uma imaginação incrível, está muito real e impressionou-me.
Vou acompanhar a estória.
" Entramos no palco e deixamos um pouco da nossa dignidade nele."
Adorei esta observação. É forte e triste.
A cena foi muito tensa com estes homens, este episódio foi um flashback de algo que aconteceu há poucos anos mas soubestes descrever como se estivesse acontecendo agora e achei isto admirável.
O bem só é mesmo praticado por quem quer. Concordo em absoluto e aguardo mais episódios.
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