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A mão que passava o eyeliner começou a tremer e como música de fundo, ouvia-se cadeiras, conversas animadas e pelo tom de voz do público, as expectativas estavam elevadas. O nervosismo atacava cada pedaço de mim.
- Shit! Borrei-me toda! – exclamei já irritada. Era a segunda vez que o eyeliner fugia e fazia um traço nas minhas bochechas! A luta para o tirar à segunda vez, fez com que os meus olhos não aguentassem a pressão. Afundei-me em lágrimas. O coreógrafo com seus toques afeminados, desmanchava-se em filosofias:
- Alice, oh dear Alice! Don’t cry!
- Go away, Chris! It’s just nerves!
- For sure? The way that you started crying … Hm, my dear … It seems that the past is making fun at you.
- What?
- Yes, my dear. You know … People talk about everything. They just talk, talk and talk for fun!
Se o Chris tentava animar-me, não escolheu bem as palavras! Afinal, mesmo fora de Portugal, as más línguas conseguem atravessar o Oceano Atlântico!
- Chris, i don’t have idea about you’re talking about but something i promise you – My past don’t afect my passion on dancing! I hope I’ve explained clearly.
- Oh, yes my dear. Now, just focus about the present and just break a leg, ok!?
- Yes, a leg and my eye if i continue to fail on puting the eyeliner!
- JESS! – gritou com a sua voz esganiçada.
- Jess, will help you!
- Ok, Chris!
Jess colocou-me o eyeliner. Retocou cada pormenor da minha maquilhagem e certificou-se de que seria a perfeita e inconfundível Odette do Lago dos Cisnes do russo Tchaikovsky.
Olhei-me ao espelho e sorri. O sonho de menina estava agora a concretizar-se no meu corpo de mulher. Abracei a Jess e avancei pelo lado esquerdo do palco. A escuridão dominava aquele cenário. Coloquei-me em posição e ao longe, começou a ouvir-se os primeiros acordes.
No momento certo, baixei o braço direito, olhei a imensidão negra que me envolvia, inspirei fundo e rodei o meu corpo sobre o meu pé direito. O resto fluiu como se não existisse chão. Caminhei um pouco em bicos de pé, sentei-me e observei a cara das pessoas que estavam a escassos metros de mim. Pareciam-me embrenhadas em cada movimento meu. Inspirei fundo, discretamente e mantive-me na personagem. Adquiri uma expressão de espanto e com a orquestra como fundo, levantei-me e como a procurar alguém no escuro …apareceu-me um vulto escuro, com a maquilhagem característica, Mago Rohbart – o homem que transformou a mulher que eu interpretava em cisne – Era suposto, assustar-me e foi isso que aconteceu mas não via o Marius a interpretá-lo … vi Chen! Quase que me desequilibrei mas mantive a postura e segui a coreografia. Acabou o primeiro Acto e saí pelo lado direito em conjunto com Marius, enquanto as restantes bailarinas davam inicio ao 2º acto. Estava na hora de me transformar em cisne negro.
- Alice, Alice!
- Yes, Marius!
- What happened?
- I don’t know! I’ve to go change me!
- Alice!!
Apressei-me a entrar no meu camarote! Limpei a base branca, com raiva de mim mesma e do meu passado. Como poderia deixar-me afectar assim? Falava sozinha quando bateram à porta.
- Who’s there?
- It’s me, Chris.
- Come in.
- Are you ok?
- Yes, i’m.
- Well, the second act is almost over.
- I konw! – exclamei já impaciente.
- Don’t worry, sweet heart! You’re going so well!
Entretanto, ele abriu a porta e saiu. Ouvi as palmas que faziam eco. Aplaudiam a Mary que fazia o papel de cisne branco. Durante os ensaios, nunca nos demos lá muito bem. Talvez por eu querer ter ficado com os dois papéis. Achava que aguentava e ainda agora, acho! O que vale é que farei os restantes actos de agora em diante. A Jess ajudou-me nos últimos pormenores do vestido e da maquilhagem! Inspirei fundo três vezes e saí. Era agora. Agora, é que era mais a sério. Avancei pelo corredor do lado direito do palco e cruzei-me com Mary.
- Little Alice, i hope you break a leg. Or two!
Ri sarcasticamente. Na verdade, gargalhei bem na cara dela!
Foi a meia-hora mais longa da minha vida. Enquanto me aguentava em pontas de pé e fazia triplas piruetas, saltos e voava … o meu cérebro não parou de pensar em Maggie e no fim do 3º acto, sem pré-aviso, partiu para pensar em Jen e num minuto, executava a coreografia numa precisão inigualável e noutro, estava estendida no chão com dificuldades em respirar. Foi o meu fracasso. A minha queda no palco.Todos correram a ajudar-me e vi Mary a rir-se na minha cara e proferiu, mal se ouvindo, apenas movendo os lábios: Quem começa de baixo nunca esquece e isso, por vezes, é a nossa maldição! – Senti-me a desmaiar e todo o sentimento de repulsa de mim mesma veio ao de cima. E também, uma decisão: comprar bilhete para Portugal!
Cassandra

2 comentários:
Ai Cass! Adorei especialmente este capítulo! O teu rigor nas palavras aumentou e estive mesmo embrenhada no enredo! Adorei este passo enorme que ela deu na vida, acabando por quase concretizar o seu sonho. Mas o passado pode retornar a qualquer momento e assombrar-nos e essa foi a desgraça de Alice ! Quero saber mais Cass! *-* Escreve rápido.
Adorei!
Parabéns, kiss! *
Eu não esperava um desfecho triste assim para o sonho de Alice, porém, é realista. Autores não podem iludir leitores e quem possui um passado negro como o de Alice, raramente consegue livrar-se dele.
Estou adorando a história. :)
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