Mostrar mensagens com a etiqueta Nem perdida nem achada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nem perdida nem achada. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, agosto 24

Nem perdida nem achada IX



«9
Acordei sobressaltada com o som estridente do despertador. 7 am. Senti-me assustada e com o coração aos saltos. Acabei por concluir que tinha estado a sonhar. Fechei os olhos num esforço de me fazer recordar o sonho e acabei por ter um flash do mesmo.
Eu via-me correr. Não estava no meu corpo mas sentia a adrenalina da corrida, o desespero e a dor causada por cada passo no asfalto. Sabia apenas que tinha que correr pois alguém me perseguia. Ganhei coragem e olhei para trás. Chen, proferi como um suspiro. O seu rosto deformado pela raiva, os olhos negros e sedentos de vingança deram-me pujança para correr ainda mais depressa. Deram-me força. Obriguei-me a abrir os olhos pois já não me lembrava de mais nada. Dirigi-me à casa de banho para um duche rápido e pensei 'Foi só um sonho, Alice! Um sonho!'. Vesti-me rapidamente e olhei o relógio de pulso. 7h30 am. Num salto, peguei nas chaves e na outra mão, a minha única mala. Já no rés-do-chão, cumprimentei o senhorio e avisei-o da minha estadia em Portugal.
- Miss, be careful! - proferiu com uma expressão soturna.
- Don'te worry, Mr Nack. I'll be back - proclamei, sorrindo com a sua preocupação paternal.
Chamei um táxi que me levou ao aeroporto. Mal dei dois passos, constatei que este estava a abarrotar de gente. 'Mau dia para viajar' pensei. Depois de muitos encontrões e pedidos de desculpa, consegui fazer o check in e embarcar. O voo irá ser longo e por isso, decidi que iria pôr ideias em ordem, planear a minha estadia e por fim, dormir um pouco. Antes de cair num sono leve, decidi que não voltaria para o meu apartamento mas que iria dirigir-me à casa de Emma. Visitaria Jen na prisão. O Ballet ficaria para segundo plano, pelo menos durante a minha estadia em Portugal. Decidi também procurar por Maggie. E o que não consegui decidir foi a duração da minha estadia, tudo iria depender do tempo a que demoraria a resolver certas questões... Se calhar até o bebé de Emma nascer. Depois de comer alguma coisa, peguei num livro de bolso e comecei a devorá-lo.
O tempo de viagem passou-se e confesso que foi doloroso. Por fim, já tinha aterrado. Deambulei à procura da minha mala e quando a encontrei apressei-me a sair do aeroporto.
Dei um assobio alto mas eficaz e num gesto rápido entrei num táxi e proferi a morada de Emma e num recorde de tempo absurdo devido ao pé pesado do taxista, estava eu defronte a um portão magistral e de cor esverdeada a separar-me de uma bela mansão. Confesso que fiquei admirada com tamanha magnitude e luxo mas lá caí na realidade e aproximei-me de um intercomunicador e toquei à campainha. Esperei meramente uns segundos quando uma voz grave se fez ouvir no intercomunicador:
- Mansão La Fontaine, que deseja?
- La Fontaine? Se calhar enganei-me na morada. Sabe dizer-me onde mora Emma Werkraft?
- Werkraft? Ah, a Senhora. Sim, sim mas esse é o apelido de solteira da Senhora. Agora, a Semhora é La Fontaine. 
- Bem, afinal, não me enganei. O meu nome é Alice Van der Vall e creio que a Emma me espera.
- Certo, Miss Alice. Vou apresentá-la.
Assim que o Senhor proferiu estas palavras, deixei de ouvir a partir do intercomunicador. Tentava,  pondo-me em bicos de pés, observar a mansão que se avistava a uns 50 metros do imponente portão que separava a propriedade La Fontaine da rua quando ouço o ranger irritante do portão a abrir-se. Peguei na minha mala e ao ver o quanto que tinha de andar, inspirei fundo e ganhei coragem para caminhar sobre o sol escaldante e a gravilha branca como neve.
Já de frente para a imponente casa, deslumbrei Emm a descer as escadas num passo apressado e com um semblante redondo. Estava linda naquela fase da gravidez e num salto, atirou-se para os meus braços.
Emma - Oh Alice, estás tão linda! Estás diferente!
Alice - E tu, estás grávida!! Como foi isso acontecer?
Emma - Queres que te faça um desenho? - proferiu gesticulando com uma mão um buraco e com a outra, esticou um dedo.
Soltámos um gargalhada em uníssono e mais uns quantos abraços quando o Sam apareceu atrás dela com um sorriso de orelha a orelha.
Alice - Meu deus, Sam! Estás muito diferente. Estás paternal!
Sam - Ahah, que piada, Alice! Estava eu no escritório e distraíram-me com tanto grito de histeria e calculei que tivesses chegado.
Alice - Mas, eu não vos avisei que vinha!
Emma - Alice, o meu marido é dono do aeroporto! Por isso, foste apanhada!
Alice - A sério?
Sam - Sim, rapariga! E sim, também estás muito diferente. Estás com uma postura mais elegante! Vá, conta-nos o que andaste a fazer por Nova Iorque?
Emma- Sam, ela deve estar cansada. Vamos deixa-la descansar.
Alice - Na verdade, não estou!
Sam - Então, vamos entrando! Não vamos ficar à porta de casa.
Alice - Casa? Mansão! Ahah
Sam agarrou na minha mala contra a minha vontade e ia à nossa frente enquanto Emma me contava fofoquises.
Emma - Sim e como te estava a dizer, ela agora divorciou-se e pronto. Mas já anda na noite. E os filhos ficam em casa.
Deixei de a ouvir assim que pus o pé no hall de entrada. Fiquei apaixonada pela mesa que se situava mesmo no meio do cenário, tinha três estátuas. O cego, surdo e mudo personificadas em crianças. Emma continuava a debitar as novidades mas fiquei de queixo caído com a mobília em volta. Parecia tudo ser do séc.XVI e eu sou apaixonada por essa altura. Continuei a seguir Sam enquanto Emma proclamou que iria ver de algo para lancharmos e este levou-me ao quarto de visitas. E se me apaixonei pelo hall de entrada, então pelo quarto não sei o que aconteceu.
Sam- Espero que gostes! Não é nada de luxuoso mas isto era um sótão como podes reparar e decidimos fazer mais um andar para cima para esse efeito e deixar este andar para os quartos. Alice, estás a ouvir-me?
Alice- Ahm... sim, estou. Adoro! Adoro o que fizeste com esta casa.
Sam- Fizemos! Quer dizer, eu paguei e mobilei juntamente com uns amigos mas como sabes foi a Emma que escolheu tudo!
Alice- A sério? Está tudo perfeito!
Sam- Sabes, ela é decoradora de interiores por isso, tem o seu mérito.
Alice- A sério? Eu não sabia! Na carta ela só contou do casamento, do bebé e do sonho dela.
Sam- Qual sonho?
Alice- Ahm, já não me lembro lá muito bem, Sam!
Sam- Então, porque vieste?
Alice- Achei que estava na altura de voltar. Nem que fosse só para assistir ao nascimento do bebé.
Sam- Alice, é um rapaz.
Alice- Parabéns!
Sam- Bem, a Emma já está a chamar por nós. Deixo aqui a tua mala ao lado da cama e vamos comer alguma coisa.
Alice- Bem, eu já desço. Vou só à casa de banho.
Sam- Para não te perderes, assim que desceres as escadas viraste para a frente das escadas e andas um pouco, viras à esquerda e depois andas uns cinco metros e pronto.
Alice- Só isso?
Sam- Sim! Não fiz disto um labirinto. Bem, ate já.
Assim que Sam saiu do quarto, de um salto atirei-me para cima da cama para testar o colchão! 'Perfeito' proferi com um sorriso largo. E reparei no espelho em frente à cama, olhei-me e estava um desastre. Tinha umas olheiras enorme e o cabelo cheio de volume. Decidi ir à casa de banho refrescar-me e mudar de roupa. Num instante, estava já a descer as escadas e segui em frente. Virei à esquerda e abri a porta. Estranhei ver uma secretária, um sofá e umas estantes cheias de livros.
- Porra, estou no escritório dele!
Decidi dar uma olhada nos livros e ver se algum me interessava, quando vi um dossier com o nome 'Energia' e a primeira coisa que me veio à cabeça foi o bar. Ouvi chamarem por mim e decidi sair do escritório e mostrar-me.
Emma- Então, não ouviste a explicação do Sam?
Alice- Sim ouvi mas distraída como sou, em vez de virar-me de frente para as escadas, continuei em frente.
Emma- Aquele é o escritório do pai do Sam.
Alice- Mas eles vivem convosco?
Emma- Não, claro que não. Mas quando ele vêm cá, o Sam e ele vão para lá. E é só o pai dele. A mãe de Sam morreu à uns meses de cancro da mama.
Alice- Lamento!
Emma- Bem, reparaste no caminho? Ou terei que andar a mostrar-te a casa?
Alice- Acho que deves mostrar-me a casa mas só depois de devorar este bolo de chocolate e o chá.

(Eles voltaram e desta vez é para pôr um fim e Continua!)
Cassandra Lovelace


quinta-feira, janeiro 26

Nem perdida nem achada, VIII


« 8
A mão que passava o eyeliner começou a tremer e como música de fundo, ouvia-se cadeiras, conversas animadas e pelo tom de voz do público, as expectativas estavam elevadas. O nervosismo atacava cada pedaço de mim.
- Shit! Borrei-me toda! – exclamei já irritada. Era a segunda vez que o eyeliner fugia e fazia um traço nas minhas bochechas! A luta para o tirar à segunda vez, fez com que os meus olhos não aguentassem a pressão. Afundei-me em lágrimas. O coreógrafo com seus toques afeminados, desmanchava-se em filosofias:
- Alice, oh dear Alice! Don’t cry!
- Go away, Chris! It’s just nerves!
- For sure? The way that you started crying … Hm, my dear … It seems that the past is making fun at you.
- What?
- Yes, my dear. You know … People talk about everything. They just talk, talk and talk for fun!

Se o Chris tentava animar-me, não escolheu bem as palavras! Afinal, mesmo fora de Portugal, as más línguas conseguem atravessar o Oceano Atlântico!
- Chris, i don’t have idea about you’re talking about but something i promise you – My past don’t afect my passion on dancing! I hope I’ve explained clearly.
- Oh, yes my dear. Now, just focus about the present and just break a leg, ok!?
- Yes, a leg and my eye if i continue to fail on puting the eyeliner!
- JESS! – gritou com a sua voz esganiçada.
- Jess, will help you!
- Ok, Chris!

Jess colocou-me o eyeliner. Retocou cada pormenor da minha maquilhagem e certificou-se de que seria a perfeita e inconfundível Odette do Lago dos Cisnes do russo Tchaikovsky.
Olhei-me ao espelho e sorri. O sonho de menina estava agora a concretizar-se no meu corpo de mulher. Abracei a Jess e avancei pelo lado esquerdo do palco. A escuridão dominava aquele cenário. Coloquei-me em posição e ao longe, começou a ouvir-se os primeiros acordes.
No momento certo, baixei o braço direito, olhei a imensidão negra que me envolvia, inspirei fundo e rodei o meu corpo sobre o meu pé direito. O resto fluiu como se não existisse chão. Caminhei um pouco em bicos de pé, sentei-me e observei a cara das pessoas que estavam a escassos metros de mim. Pareciam-me embrenhadas em cada movimento meu. Inspirei fundo, discretamente e mantive-me na personagem. Adquiri uma expressão de espanto e com a orquestra como fundo, levantei-me e como a procurar alguém no escuro …apareceu-me um vulto escuro, com a maquilhagem característica, Mago Rohbart – o homem que transformou a mulher que eu interpretava em cisne – Era suposto, assustar-me e foi isso que aconteceu mas não via o Marius a interpretá-lo … vi Chen! Quase que me desequilibrei mas mantive a postura e segui a coreografia. Acabou o primeiro Acto e saí pelo lado direito em conjunto com Marius, enquanto as restantes bailarinas davam inicio ao 2º acto. Estava na hora de me transformar em cisne negro.
- Alice, Alice!
- Yes, Marius!
- What happened?
- I don’t know! I’ve to go change me!
- Alice!!
Apressei-me a entrar no meu camarote! Limpei a base branca, com raiva de mim mesma e do meu passado. Como poderia deixar-me afectar assim? Falava sozinha quando bateram à porta.
- Who’s there?
- It’s me, Chris.
- Come in.
- Are you ok?
- Yes, i’m.
- Well, the second act is almost over.
- I konw! – exclamei já impaciente.
- Don’t worry, sweet heart! You’re going so well!

Entretanto, ele abriu a porta e saiu. Ouvi as palmas que faziam eco. Aplaudiam a Mary que fazia o papel de cisne branco. Durante os ensaios, nunca nos demos lá muito bem. Talvez por eu querer ter ficado com os dois papéis. Achava que aguentava e ainda agora, acho! O que vale é que farei os restantes actos de agora em diante. A Jess ajudou-me nos últimos pormenores do vestido e da maquilhagem! Inspirei fundo três vezes e saí. Era agora. Agora, é que era mais a sério. Avancei pelo corredor do lado direito do palco e cruzei-me com Mary.
- Little Alice, i hope you break a leg. Or two!
Ri sarcasticamente. Na verdade, gargalhei bem na cara dela!
Foi a meia-hora mais longa da minha vida. Enquanto me aguentava em pontas de pé e fazia triplas piruetas, saltos e voava … o meu cérebro não parou de pensar em Maggie e no fim do 3º acto, sem pré-aviso, partiu para pensar em Jen e num minuto, executava a coreografia numa precisão inigualável e noutro, estava estendida no chão com dificuldades em respirar. Foi o meu fracasso. A minha queda no palco.Todos correram a ajudar-me e vi Mary a rir-se na minha cara e proferiu, mal se ouvindo, apenas movendo os lábios: Quem começa de baixo nunca esquece e isso, por vezes, é a nossa maldição! – Senti-me a desmaiar e todo o sentimento de repulsa de mim mesma veio ao de cima. E também, uma decisão: comprar bilhete para Portugal!
Cassandra

sexta-feira, janeiro 13

Nem perdida nem achada, VII


"7
O frio impedia-me de pensar e eu só queria conseguir achar a porcaria das chaves na mala! Que poço sem fundo. Decido chocalhar a mala e não ouvi nada. Decidi apalpar os bolsos e lá estavam as chaves, no bolso direito do casaco. Rapidamente, abri a porta do prédio e fui atacada por um calor ambiente. Suspirei e senti-me agradecida, esfregando as mãos. Olhei de relance a caixa do correio que demarcava o sétimo esquerdo e inesperadamente, lá estava uma carta a aparecer. Fui atacada por inúmeras hipóteses e nenhuma delas esperava que fosse a Emma. Peguei no envelope e vi a sua delicada letra que mostrava o meu nome e morada. Nem me dei ao trabalho de esperar pelo elevador … subi as escadas três a três, abri a porta de casa e refugiei-me rapidamente no meu quarto. Rasguei o envelope e dediquei-me a ler.

“Querida, Alice. Antes de mais, peço desculpa pelo tempo que demorei a contactar-te! Merecias mais da minha parte. Eu tenho tantas mas tantas novidades que nem sei bem por onde começar mas prefiro adiantar-te a razão porque te escrevo! Tive um sonho bastante estranho com o Chen. E achei que deveria escrever-te. O Sam conseguiu a tua morada a partir do teu irmão, espero que não te importes. Agora, as novidades. Estou casada e antes que comeces aí a resmungar, peço desculpa por não teres sido a madrinha ou até mesmo uma das minhas damas de honor mas sabes, tu estás fora de órbita e dos meus olhos! Nunca pensei que fosses realmente para os Estados Unidos! Fiquei triste porque queria que estivesses presente nestes momentos e cheguei a enviar os convites mas decerto que ficaram perdidos. O Sam apoiou-me imenso na tua ausência. Sabes alguma coisa sobre a Maggie? Ela nunca me respondeu e bem, não sei de ninguém que me possa informar sobre ela! Agora, vou contar-te como tudo aconteceu … de como acabei casada e prestes a ser mãe, sim! Isso mesmo! Mãe! Imagina só … meu deus. Ainda estou nas nuvens. O Sam conseguiu conquistar-me. É um homem bom, pensa em mim e somos realmente amigos! Somos perfeitos juntos. É estranho de dizer mas essa é verdade. Devias ver a nossa felicidade. Como funcionamos juntos e como as nossas personalidades se encaixam! É realmente mágico e arrisco-me a dizer, é amor! Então, acabei casada após um ano de relacionamento. O processo de conhecer os pais dele foi um pouco complicado porque eles tentavam saber tudo sobre mim! Literalmente, t-u-d-o! Então, como é que eu explicava aos pais dele que trabalhei durante anos num cabaret e que fui paga por sexo e ironicamente, foi assim que conheci o filho deles?! Não podia fazer isso! Então decidimos, criar o meu passado em conjunto. Como não sabia dos meus pais, não foi difícil! Não haveria ninguém para revelar a verdade, excepto Jen que ainda está na prisão. A minha história pareceu-lhes viável e Sam diz que adoram-me. Na verdade, estava bastante nervosa mas acabei por ser eu mesma e tudo correu bem. Assim, estava em apenas umas horas, aprovada pelos pais! Não custou nada até ele começar a falar sobre um futuro. Ainda não pensava em casar mas também não pensava em acabar com ele. Estava tudo incerto mas ele tirou-me todas as dúvidas que tinha. Alugou um barco e fomos passar um fim-de-semana em alto mar. Estava um calor infernal e passamos o fim-de-semana, a torrar ao sol! Na primeira noite, ele fez um jantar digno de uma princesa! Falamos e falamos e estava eu a rir-me de uma piada, quando ele descontrai os músculos da cara de repente, e fica sério. Estranhei a atitude e parei de rir. Assim que o fiz, ele desbobinou, Emm dás-me a honra de poder chamar-te Esposa? Comecei a rir de novo. Sam, é uma nova piada? E ele apenas não respondeu, manteve-se sério e eu vendo que ele estava a falar a sério, sorri e disse, Sim Sam! Quero ser a tua esposa e mãe dos teus filhos! E assim começou a nossa aventura a dois, Alice! O resto gostaria de contar-te pessoalmente e além de contar, gostaria de mostrar-te onde vivo, a minha cozinha. Quero mostrar-te o sitio perfeito em que vou criar os meus filhos! No fim da carta, está a nossa morada. Tens autorização para aparecer! E se não o fizeres dentro de 3 meses, eu voltarei a escrever-te! E além disso, quero uma resposta a esta carta, nem que seja a avisar que leste a carta, que estás bem e que pormenores só me dirás pessoalmente. Espero que estejas a concretizar o teu sonho! Profissionalmente, estou parada mas comecei a tocar piano! Estou a amar descobrir este meu lado criativo que ficou escondido e preso na Emm do passado, mais propriamente na Shelly! E, a razão principal porque estou a escrever para ti … o Chen. Ele atormentou-me enquanto dormia e foi realmente perturbador. Ele falou que em breve uma de nós iria pagar pelo que lhe aconteceu. A cara estava cheia de cicatrizes, o buraco da bala no peito jorrava sangue. E assim que falou, riu-se maleficamente gritando, Uma de vós virá fazer-me companhia! Sabes como eu sou. Necessitei de imediatamente de saber algo sobre ti e a Maggie! Espero que tenhas lido isto. E ainda mais espero que saibas algo da Maggie! Estou com um estranho pressentimento de que algo não irá correr bem! Bem, já não sei mais que te dizer. Estou com sono e acabo assim a minha carta. Quero uma resposta! Tenho tantas saudades tuas e além disso, quero que venhas a Portugal para o baptismo da pequena Alice. VÊM RÁPIDO! Com amor, Emm!”

Limpei as lágrimas. Caíram de felicidade mas também pela amargura que a recordação de um passado pode ter! Agora, lamento ter cortado as minhas palavras para com elas. Acho que apenas quis esquecer um passado, apenas cortar relações com ele! Estou tão feliz aqui. Fora de alcance mas parece-me que terei que voltar. Amanhã, é dia de apresentação. Sou a protagonista do Lago dos Cisnes. Não em teatro … sim, isso mesmo … em ballet! Não quero voltar. Tenho que lhe escrever e explicar-lhe que não posso deixar que o passado me atormente e que ela deve esquecer esse sonho! Apenas, quero ser feliz e raios, amanhã vou concretizar o meu sonho! Tentei tirar da minha cabeça aquela carta mas estava a ser impossível. É quase meia-noite e ainda estou com o papel amarelado na mão a reler as palavras dela. Está tão feliz mas mesmo assim deixa o passado lembrar-se de quem ela foi. E arrastou-me com ela. Pergunto-me como é que o Jen está. E pergunto-me se, ainda o amo. Pará, Alice! Fecha os olhos e dorme porque amanhã, sentir-te-ás completa e concretizada! Todas as nódoas negras, feridas valerão a pena!"
(continua)
Cassandra

segunda-feira, dezembro 19

Nem perdida nem achada, VI


« 6
Lila
Ouvi uma voz exaltada. Disse ao meu cliente que ia à casa de banho e tentei ver o que se passava! Vi um homem a falar com a Cassie mas chamava-lhe Alice. Será que era algum conhecido dela!? Como ele me pareceu bastante exaltado, decidi aproximar-me.
Cassie- Lila! O que fazes aqui?
Pareceu-me bastante surpresa por me ter visto e tentou disfarçar, respirando três vezes como fazia para se controlar.
Lila- Está tudo bem? Este senhor está a incomodar-te?
John- Olá, sou o Rui. Não, estávamos só a trocar ideias sobre qual seria o melhor sitio para estarmos.
Lila- De certeza que é isso, Cassie? (aproximei-me dela e sussurrei) Ele chamou-te Alice!
Cassie- Está tudo bem, Lila!
John- Então esta é que é a famosa Lila? E onde está a Shelly?
Cassie- Sim, Lila. Onde está a Shelly? Precisamos de falar. Eu, tu, o Rui e a Shelly.
Lila- Antes de descer para a cave, vi-a com um dos teus amigos, Rui.
John- Ah, sim. O Sam! E estás a divertir-te com o mais porco dos meus amigos?
Lila- Cala-te. É preciso. Se é preciso, faz-se! Bem podia ser ela a chupar-lhe a pila mas não, está aqui no paleio!
Cassie- LILA!
O Rui atirou-se a mim como uma águia se atira à sua presa. Quando dei por mim, estava no chão e ele estava em cima de mim, a chamar-me todos os nomes e mais algum. E por cima dele, estava a Cassie a gritar com ele!
Cassie- John! Larga-a! Ela falou por falar. LARGA-A JOHN!
Ele acalmou-se e eu levantando-me meia tonta gritei.
Lila- Então? Ele, afinal é John? Então, Cassie ou melhor, será Alice?
Cassie- Cala-te! Fala baixo. Temos que encontrar a Shelly. Este é o John, o meu irmão!
Lila- O teu irmão? Oh Cassie, sabes o que acontece se o Chen descobre?
Cassie- Sim, eu sei! Por isso, é que temos que sair daqui!! O mais depressa, possível.
Lila- Mas como?
Cassie- Antes demais, temos que encontrar a Shelly!

Com a Shelly

Shelly- Sam, quando ele acordar vai procurar-me!
Sam- Então temos que o prender! Arranja-me umas cordas e depois de amarrado iremos escondê-lo no seu escritório!
Shelly- Não! Não pode ser! Além de ele, temos que ter cuidado com o Jen!
Sam- Oh shit. E além dele, os guardas. Foda-se. Olha, deixamo-lo aqui e vamos procurar os meus amigos! Onde achas que podem estar?
Shelly- Bem, eu vi a Lila a ir com um dos teus amigos para a cave e pelos gestos que a conversa entre a Cassie e o outro teu amigo, estavam a ter … Cá para mim, estão na cave!
Voltamos para trás. O ambiente no bar estava igual como se nada passassse. Mas tudo se passava! A minha vida estava prestes a mudar e tinha que fazer tudo como deve ser.
Shelly- Sam, coloca a tua mão no fundo das minhas costas. Quando chegarmos ao pé do guarda, sorri para ele e apalpa-me!
Sam-Okay, vou tentar ser convincente.
Conseguimos passar e enquanto descíamos os degraus ouvi a Lila e a Cassie a discutirem e ao pé delas estava o homem que estava com a Cassie antes de ter tentado fugir.
Cassie- Shelly?
Ainda nem tínhamos acabado de descer, ela apenas ouvia os nossos passos.
Shelly- Sim, sou eu. Temos MUITO que falar!
Lila- Sim, temos. Que raio de noite!
Assim que cheguei ao fundo das escadas, vi o espectáculo que se passava!
Shelly- Que raio se passa aqui?
Cassie- Acho melhor irmos para um quarto. Onde estavas, Lila?
Lila- Ah, esqueci-me complemente dele. Bem, sigam-me.
Seguimos a Lila pelo corredor e virou à direita, três ou quatro quartos depois e lá estava um rapaz de boa constituição, todo nu … em cima da cama. E assim que viu tanta gente para assistir, embrulhou-se um dos lençóis.
Lila- Se fosse a ti, não fazia isso! Veste-te. A party acabou.
Curtis- John? Sam? Que raio estão a fazer aqui? Já não se pode comer uma gaja em paz?
Assim que a Shelly e a Cassie entraram, mudou o discurso.
Curtis- Hey? Orgia? Nem pensar!! Vão para outro lado.
John, abraçando a Cassie- Curtis! Cala-te. Esta é a minha irmã, Alice!
Cassie- Curtis? Oh meu deus! Não te lembras de mim?
Curtis- Sim, lembro do quanto tu me perseguias e querias um beijinho meu. Ainda queres, doçura?
John- Não fales assim dela!
Curtis- Então, como é que vieste aqui parar? Tens a noção do quanto toda a gente sente a tua falta? PORRA, NÓS FIZEMOS-TE UM FUNERAL!
O Curtis passou de humor brincalhão para mostrar que estava magoado e a Cassie/Alice, simplesmente engoliu em seco e nada pôde dizer em sua defesa mas mesmo assim, decidiu justificar-se.
Cassie- Estou arrependida mas nunca tive maneira de voltar para casa! Nunca!
A Lila e a Shelly colocaram-se, estrategicamente a seu lado. Queriam mostrar que a defendiam e além disso, que também queriam sair dali!
John- Então, Alice, tens algum plano?
Alice- Não faço ideia. Um de vós podia chamar a policia. Conseguiríamos fugir e fechar este antro de uma vez por todas mas teríamos mesmo que fugir, se não iremos presas.
John- Então, o plano é este.
Em conjunto, decidimos que um deles provocaria uma luta no bar e isso provocaria que se chamasse a polícia. Fariam que a polícia visse a cave mas antes teríamos que sair pela porta da frente.
O Curtis ficou responsável pela luta. Só poderia ser ele.
Bateu nalgum rapaz e a rapariga que estava no bar, na sua perfeita ‘inocência’ chamou a Polícia! Assim que a Polícia, entrou o Curtis fugiu em direcção à porta que dava em direcção à cave. Os guardas estavam todos confusos e o Curtis conseguiu com que um ou dois polícias, o suficiente para que vissem a cave. O Curtis saiu pela janela e foi para o carro e lá dentro já se encontravam todos.
Curtis- Oh miúdo, nunca foi tão fácil! Vamos embora. O mais rápido possível!
O John ligou o carro e saímos dali. Nós saímos dali!
A Lila chorava, a Cassie sorria triufante e a Shelly beijava o Sam!
Cassie- Já chega de nomes falsos! Acabou-se os nomes falsos. Bem, o meu nome verdadeiro é Alice.
Lila- O meu verdadeiro nome é Margaret mas podem chamar-me Maggie.
Shelly- O meu verdadeiro nome é Emma.
Uma nova etapa da nossa vida iria começar. Poderíamos perseguir os nossos tão esperados sonhos e cheios de pó pelo tempo que estiveram na gaveta. Juramos manter o contacto através de cartas pois apesar de ser um passado que queríamos esquecer foi graças a termo-nos conhecido que conseguimos aguentar cada dia! Era algo que deveria permanecer no nosso futuro, a nossa amizade! O John sorria radiante por ter a irmã de volta e ao mesmo tempo, babava-se para a beleza pura de Maggie. Dormiram na casa de Curtis e de manha, Alice fazendo a sua rotina, ligou a televisão e sentou-se no sofá embrulhada na toalha, acabada de sair do banho. A colher que levava os cereais à boca, ficou paralisada com a notícia de última da hora.

Agora em directo, do Bar mais conhecido aqui da zona de Sintra. O Bar Energia acabou de ser fechado e tudo porque ontem houve uma luta o que levou a polícia ao local do incidente. O que não esperavam era que a luta os ajudasse a conhecerem o lado obscuro do Energia. Como vêem várias mulheres estão a ser escoltadas a casa e o filho do dono do Bar acaba agora de ser algemado e levado para prestar declarações. O que não se esperava deste fim atribulado, foi a morte do dono do Energia. Chamavam-se Chen e tentou fugir à polícia mas a fuga acabou em tragédia com o despiste do mesmo acabando por ter morte imediata.

A imagem do Jen a ser preso atingiu-me como uma bala! Não tinha pensado nisto. Entretanto a Emma entra na sala.
Emma- Será que ouvi bem?
Alice- Sim, ouviste!
Emma- Estou tão feliz! Eles realmente mereciam! Finalmente, um final feliz mas sem fim porque temos muito para viver e muito para visitar! Alice, estamos livres, finalmente!
Alice- Sim, pois estamos.
A sua voz não mostrava entusiasmo e previ logo que ainda o amava.
Emma- Alice, tu ainda o amavas?
Alice- Secalhar, sim. Secalhar, não! Como é que posso amar alguém que me prendeu?
Tenho de o esquecer mas antes tenho que falar com ele. Tenho que o fazer!
Emma- Não, Alice! Não o faças! Só irá ser pior para ti! Agarra nas tuas coisas, vai ver os teus pais. Esquece esse Homem! Mereces mais e melhor! Tal como eu encontrei. O Sam é perfeito. Tu irás encontrar alguém assim, acredita!
Alice- Não sei. Eu só quero é recuperar o meu sonho. Quero concentrar-me no meu sonho e não sei o que fazer.
Continuaram as duas a falar sobre um possível futuro durante horas e acabariam por decidir sair da cidade ao fim da tarde. »
(continua)

domingo, dezembro 18

Nem perdida nem achada, V


Nem perdida nem achada IV
« 5
Era uma noite como todas as outras mas tudo iria, supostamente mudar. Lembro-me que estávamos as três estranhamente bem-dispostas, parece que já estávamos a adivinhar o que aí vinha! A noite já ia, sensivelmente a meio quando entrou um grupo de homens. Nessa noite, não estávamos no palco por isso, misturávamos-nos no meio dos clientes, bebíamos à conta deles e nada mais que isso. Só quando um homem nos agrada-se, que nos fizesse esquecer que estávamos ali para nos vender é que os encaminhávamos para a cave, apesar de no fim, eles nos pagarem. Mesmo assim, era diferente. Não estávamos marcadas e poderíamos ser nós próprias e se não levássemos ninguém ao nosso interior não eramos castigadas por isso! Era quase como se fosse uma noite de folga. Como dizia, um desses homens do grupo sentou-se ao lado de cada uma de nós.

Shelly
Era um homem realmente atraente. Diferente da clientela velha e antiga que costumava aparecer todos os santos fins de semanas. Foi realmente revigorante ser elogiada e seduzida por um homem quase da minha idade e além disso, nós realmente conversamos! Sim, nós falamos e foi a melhor noite que tive em toda a minha vida! Os outros homens apenas se interessavam em tocar-me, em dizer-me o quanto gostariam de fazer sexo comigo e este? Apenas se interessava em saber se preferia ir a Londres ou a Holanda! Entre saber se prefiro leite natural ou com chocolate ... quente ou frio! Não sei. Ele quis saber o que gostava ou deixava de gostar e o melhor? Não tentou fazer sexo comigo. Apenas falamos, bebemos e dançamos! Quis ir com ele para outra discoteca ... uma que não tivesse amigas minhas a despirem-se mas como sempre, o Chen barrou-nos e afastou-o de mim! Ele nem tinha percebido que fazia parte delas até que tentei sair dali com ele.
Sam - Ahaha, nem acredito que fui encontrar alguém assim aqui!
Shelly - Assim, como?
Sam - Tão inteligente! Arrogante, dona do seu nariz! Se me dissessem agora que trabalhavas aqui, a despir-te ... eu não acreditaria!
Deixei de sorrir. Senti uma espécie de facada no peito e ele percebeu.
Sam - Estás bem?
Shelly - Vamos embora! Tiras-me daqui?
Sam - Sim, claro!!
Assim que ele proferiu a palavra-chave, agarrei na mão dele e saímos pela porta detrás do palco. O Sam só fazia perguntas e eu estava a ficar louca por não poder respondê-las. O meu cérebro apenas pensava na Lila e na Cassie e como poderia levá-las também quando tentei abrir a porta e não consegui. Sam tentou arrombá-la mas nada!
Chen- Que raio pensas que estás a fazer, Shelly?
Sam- Shelly? Oh e também és Emma? Quero dizer, é o teu nome do meio,certo?
Chen - Ah coitadinho! Pensou que aqui a boazona era uma rapariga normal! Mas não! Ela trabalha para mim e não pode sair daqui a não ser que tu pagues bem por ela ir contigo para casa!
Shelly - Desculpa, Sam. 
Sam - Então, é verdade?
O Chen, que estava parado ao fundo do corredor, tomou uma atitude e dirigiu-se a nós e Sam não pensou duas vezes. Espetou-lhe um murro que o deixou estatelado no chão.
Sam- Já estava farta de o ouvir! Que idiota! Ele obriga-te a trabalhar para ele?
Shelly - Sim, obriga. E o meu nome é mesmo Emma. O Shelly é que é o falso. Desculpa não ter te dito.
Sam - Sim, claro. Antes de te apresentares, dirias 'hey, trabalho aqui, falas comigo?'. Seria tudo diferente. Não te daria sequer oportunidade para que fosses tu mesma!

Entretanto com a Cassie
Descia cada degrau a pensar de como estaria a Lila e a Shelly a safarem-se. Com um ou dois toques de conversa descobri que o homem que tentava levar-me para cama era meu irmão. Foi um choque tremendo. Convenci-o a irmos para a cave para podermos conversar mais à vontade e sem sermos interrompidos e nunca desconfiariam que ele era o meu irmão. Vamos recuar uns meros quinzes minutos para perceberem.
Estava no balcão e pedia um vodka redbull quando, sinto um toque.
Rui - Hey, importaste que te pague a bebida?
Cassie- Claro que não. Já agora, sou a Cassie.
Rui - E eu, sou o Rui. Não quero estar-me a meter mas posso perguntar-te algo?
Cassie - Sim, claro.
Rui - Estás a gostar da noite?
Esbocei um sorriso e, - Sim, estou e tu?
Rui - Também. Então e és daqui da zona?
Cassie - Sim, sou e tu?
Rui - Nunca te vi por aqui. Moro ao pé do teatro.
Cassie - Isso é porque trabalho aqui e que fazes da vida?
A cara dele mudou completamente mas ao avaliar-me tornou a sorrir e deve ter decidido que não era demais continuar a falar comigo.
Rui- Vim para aqui quando era pequeno.
Cassie- E onde estavas antes de vires para aqui?
Rui - Em Angola.
Observei-o melhor. Conseguia ver os olhos cinzentos do pai e o sorriso harmonioso da mãe!
Cassie - John?
Rui - Não! Sou o Rui!
E ali estava o meu irmão mais velho! O tom de voz e indignado que usou denunciou-o. Era mesmo ele.
Cassie - John, sou eu. A tua irmã!
John - Não! A minha irmã morreu à muito tempo!
Cassie - Olha para mim!
Comecei a limpar a base, a tirar o batom dos lábios e a limpar os olhos. Quando percebeu que era eu, a sua adorada irmã, abraçou-me! Senti o seu rosto molhado nos meus ombros. 
John - Alice!? Oh meu deus, Alice!! Que raio estás tu aqui a fazer? Os pais pensam que estás morta!!
Cassie - Cala-te! Fala baixo. Alinha no que eu faço!
Beijei-lhe a face e dei-lhe a mão e ele seguiu-me. O guarda que estava á porta, olhou-nos e então John colocou o braço em volta de mim e comentou o quão boa eu era e ele abriu a porta. Descemos cada degrau em direção à cave.
John - Desculpa ter dito aquilo mas assim ele deixou-nos passar.
Cassie- Eu disse para alinhares comigo, não disse?! Estava a falar disso!
John- Como vieste aqui parar? Porque nunca fugiste? Porque nunca nos telefonaste? PORQUE?
Cassie- Hei-de responder a um pergunta de cada vez mas primeiro tiras-me daqui?
John- Isso nem se pergunta duas vezes! Que tal agora, Alice?
Cassie - Não, John! Não me trates por esse nome! Cassie! Antes que alguém te ouça.
John - Ok, Cassie! Que tal agora?
Cassie- Não pode ser! Não sei quando é melhor. De noite, o Chen está a contar connosco para estarmos sempre aqui e de dia, estamos vigiadas a toda a hora! E tens que levar também a Lila e a Shelly!
John- NÃO! Só tu, Alice! SÓ TU!

(continua)

sexta-feira, novembro 4

Nem perdida nem achada, IV

« 4
Era noite do dia das Bruxas. A Cassie e Shelly já tinham saído. Esta noite, excepcionalmente, atrasei-me. Não era uma noite como as outras porque o dia seguinte é feriado e então o Energia, enchia-se de homens à procura da sua fantasia em forma de mulher. Naquele ano como todos os outros, vesti-me de branco e não estava realmente assustadora mas sim, sexy e sentia-me bem porque retratava aquilo que restou da minha adolescência. A pureza ditada pelo branco misturada com a sensualidade do meu trabalho no tamanho da roupa. Vi-me ao espelho uma última vez e saí do apartamento. Como flutuando no ar, desci cada degrau em cima dos meus saltos monstruosos e senti-me observada. Olhei em redor e fixei o meu olhar na floresta. Sempre me senti segura neste ambiente e agora devido á situação em que estou metida, sinto medo da floresta e ao mesmo tempo um fascínio por ela. Já dentro do Energia, o calor humano aumentou. Dirigi-me a uma entrada por trás do palco e cumprimentei cada rapariga. Estavam todas a dar os últimos retoques. De repente, ouve-se um som característico do microfone e uma voz austera e forte, « Boa noite, gentlemans! Hoje como tema teremos as nossas dançarinas vestidas das mais diversas fantasias! So enjoy it! » gargalhando no fim, o Chen. Houve um clamor de palmas. Entramos no palco e deixamos um pouco da nossa dignidade nele.

O bar estava a fechar. Levava os sapatos na mão, já não aguentava tê-los nos pés. De repente, sou abordada por um grupo de homens que se encontrava à entrada do bar, completamente bêbedos. “Então, querida?! Eu via-te melhor de costas!”, exclamou o mais velho, completamente de olhos revirados e ar rebarbado. Aconcheguei-me ao casaco que tinha e tentei seguir o meu caminho sem os olhar mas de repente, o mais novo agarra-me pelo braço e proclama, por entre soluços: “Quanto levas?”. Dei-lhe um estalo. Os outros alvoraçaram-se e começaram a chamar puta , vadia, cabra. Rodearam-me e começaram a tocar-me. Tentei gritar. Nesse mesmo instante, levei um soco que me pôs a deitar sangue do lábio e perdi o equilíbrio. Numa tentativa desesperada de defesa, atirei os sapatos ao grupo mas nem isso os fez afastarem-se. Ouço um som característico de séries policiais. Um tiro. Paralisei completamente e ainda cambaleante do soco, caí. Eles dispersaram. Senti uns braços fortes e cheiro a terra molhada. Apaguei mas ainda senti que estava a ser levada para algum lado. Na manhã seguinte, acordei rodeada pela Cassie e pela Shelly. “Então, que merda aconteceu ontem?” proferiu a Shelly com cara de ensonada. “ Vieram aqui deixar-te, Lila!”, disse a Cassie, enquanto a Shelly continuava com as suas perguntas. Tentei responder mas doía-me imenso o lábio. Proferi apenas ‘bêbedos’, ‘atacaram-me’, ‘soco’ e ‘um homem’. Elas entenderam com estas meias palavras. Já sabiam o que a casa gasta! Nunca soube quem me trouxe para casa. Elas não souberam descrevê-lo. Nunca me interrogaram sobre essa noite e foi quase como se não tivesse acontecido, excepto o meu lábio inchado para o comprovar. Ainda hoje, após 2 anos, procuro esse homem e o cheiro a terra molhada. Ele bem podia ter me violado ou assim mas decidiu deixar-me em casa e tomar conta de mim. Salvou-me a vida e é algo, que neste mundo, é raro encontrar! Elas sempre gozaram comigo e diziam no tom de gozo ‘O teu príncipe encantado deixou-te! Nunca o irás encontrar’ mas nunca perdi a esperança tal como nunca deixei de acreditar que há excepções e nem todos escolhem ser maus! Claro que com o tempo essa minha esperança foi-se perdendo e o facto, de ainda continuar neste antro, só ajudou a constatar de que todos praticam o mal e o bem só é praticado por quem quer. »

quinta-feira, outubro 6

Nem perdida nem achada, III


« 3 
Chega de falar sobre a minha vida de noite. Hoje é sobre a minha vida de dia, sim porque eu vivo também de dia. Normalmente, as minhas noites acabam as 6 das manhã. Recebo o dinheiro do último cliente, deixo-o a dormir na cama de um daqueles quartos apenas separados por paredes (que não impede que o som se propague criando assim um ambiente um pouco ou tanto constrangedor) e obrigo-me a não olhar para trás. Dirijo-me para o meu apartamento que bem, digamos é por cima do Energia. Partilho com a Lila e a Shelly. Enfio a chave na fechadura, rodo devagar e tento abafar o som da porta, elevando-a pois odeio o som que ela faz mas foi em vão. Para mim, pareceu que fez um barulho enorme mas na verdade, foi mínimo. Pareceu enorme porque a casa estava num silêncio habitual a esta hora. A Lila ainda dormia na cave e a Shelly tinha ido fazer serviço domiciliário por isso, estava sozinha em casa. Eu fazia questão de sair da cama assim que o cliente adormecesse, acho que era demasiado acabar por adormecer com ele porque na verdade, é isso que se faz quando sentes e eu não sentia e daí abandonava o local. Éramos constantemente vigiadas caso tentassemos fugir mas quando não mostrávamos nenhum interesse em fugir e aparentavamos gostar do que faziamos ainda agradecendo falsamente ao Chen, ganhávamos pontos extra e eramos apenas observadas à distância e por vezes, até éramos deixadas sem vigia. O nosso apartamento era simples. Três quartos, sala, cozinha, uma casa de banho em cada quarto. Entravamos e dávamos logo com a sala de estar e depois desta havia um balcão que separava a sala da cozinha. À esquerda, havia um corredor e o primeiro quarto à direita era o da Lila, o da frente o da Shelly e o meu era do lado esquerdo mas ficava mesmo no fim do corredor. Eu gostava do meu quarto. Assim que entrava, do lado direito encostado à parede um conjunto de gavetas sobre comprido castanho e por cima, um espelho colado à parede. Em frente, tinha uma cama de solteira completamente normal, colcha branca de verão. Um puff ao lado do armário e por cima deste, toda uma gama de cremes e maquilhagem. Do lado esquerdo, o armário. Sapatos, fantasias, roupas mais ousadas e até mesmo roupas normais, demasiado normais que criava um contraste entre a minha vida da noite e a minha vida do dia, quase que dava para acreditar que eu era duas pessoas ou que teria dupla personalidade mas não, era apenas o meu trabalho. Uma mesa de cabeceira em cada lado da cama e do lado direito, uma janela com vista panorâmica para uma imensa floresta. Esqueci de mencionar que o Energia fica na orla de uma densa floresta na zona de Sintra. Muito pacato mas nem por isso, deixa de ser um local em busca de um calor humano quando em casa a mulher falha e andar à procura dá trabalho e então, vai-se ao Energia. Arrastei-me pela casa, estava cansada mas isso não me impediu de me enfiar na banheira … precisa de me limpar, na verdade, era tentar porque a cada cliente a minha alma tornava-se mais suja. Depois do banho, embrulhada na toalha dirigi-me para a sala. O meu corpo estava cansado mas tinha a minha mente completamente desperta, algo que não é normal. O normal é adormecer em cima da cama embrulhada na toalha e ainda com o cabelo por pentear e hoje, isso não aconteceu! Liguei a televisão e o silêncio naquela casa quebrou-se.Preparei algo para me restituir a energia perdida e assim que me vi de estômago cheio adormeci a ver os anúncios ininterruptos pela manhã.

Saí de casa de um deputado importantissimo com uma gorjeta bem volumosa para me calar. Não seria dificil bastava a quantia certa. A Cassie decerto que já está em casa, metida no sofá embrulhada numa toalha de banho! Aquela rapariga não é normal. Encontro-a todos os dias naqueles preparos e não consigo evitar um sorriso ao ver a sua preguiça em colocar um pijama. Aposto que a Lila como sempre ficou a dormir na cave. Aquelas camas aumentam-lhe o sonho de um principe encantado, acho que é por isso que ela acaba por ficar lá. Sem elas, eu estaria completamente perdida e desorientada. Apoiamo-nos no momento mais dificil da vida de cada uma e acho que isso foi vital para que nenhuma de nós comete-se alguma loucura que nos levaria á prisão e na pior das hipóteses e a que era mais provável de acontecer: a morte.Uma vez tentei fugir. Ainda não confiava nelas e tentei fugir sozinha. Era noite de lua cheia e o Energia estava cheio de gente e supostamente, o meu turno já teria acabado. Subi ao apartamento e enchi uma mochila com os elementos essenciais incluindo alguma comida e saí rumo ao denso interior da floresta. Estava realmente escuro e caminhava cuidadosamente para que não caisse em falso e acabasse por me aleijar até que, mais ou menos quinze minutos depois ouço o meu nome. “Shelly, sua filha de uma grande puta! Onde estás? Sabes bem que aqui te perdes! Volta e assim não te magoarei!” - quando ouvi a voz inconfundível de Chen o meu corpo respondeu em meros segundos. Comecei a correr de lanterna na mão. O plano era caminhar na orla da floresta perto da estrada mas como era perseguida que nem um coelho decidi aventurar-me pela imensa floresta. Sabia que quando encontrasse um casarão abandonado e segui-se o caminho pela direita iria ter junto à Estrada Principal e quando aí chegasse iria arranjar boleia para bem longe dalí. Corri até os meus músculos começarem a darem sinais de cansaço e estava com a adrenalina no máximo e atenta ao mínimo barulho e vozes que ficavam para trás. Ouvi o Jen - “ Então, Shelly? Sabes bem que não consegues! Nós havemos de te encontrar e aí irás sofrer as consequências! “ e então ao ouvir a sua voz rouca e umas luzes perto do Àrvore velha, decidi criar um rasto falso! Deixei o cachecol nuns arbustos e segui o caminho contrário. Eu não podia voltar para lá, não podia simplesmente! Tinha dezasseis anos. Não me arrependo da minha tentativa falhada pois sei que por horas, por momentos consegui fugir das mãos deles. Calculei que eles conhecessem bem a floresta e por isso, decidi não parar. Até que cheguei á Estrada. Era aquela hora que todos voltam para casa depois de uma noite de copos e bem, ninguém me quis dar boleia. Fazia sinais e por momentos, virei as costas á estrada. Não senti o carro a chegar. Apenas uma pancada na cabeça tão forte que me fez cair redonda no chão e a voz de Chen. Acordei amarrada na cave a uma cadeira. Estava apenas em roupa interior. Com dificuldade, abri os olhos e levei com um balde de água fria que me fez enrijecer os músculos. Gritei. “Cala-te sua puta. Estou farta de ti!”, disse Chen bastante irritado, “Se sou puta, é porque me obriga seu porco de merda!”, cuspi-lhe para os pés e de seguida, levei um estalo que me virou a cara. As lágrimas teimavam em cair por causa da dor mas prometi a mim mesma não chorar e assim foi. As lágrimas que chegaram a cair secaram e não cairam mais. Estive um dia naqueles preparos e quando pus os pés em casa eram 11 da noite do outro dia. Cabelos emaranhados, nódoas negras, olho direito inchado, garganta dorida de tentar gritar e tratei de mim naquela noite. Nem um hospital! Aquela noite foi a pior da minha vida e foi aí que decidi cobrar sexo porque assim daria mais margem de manobra e bem, ganhava mais dinheiro para que um dia, com um plano como deve ser, pudesse acabar por sair daquele antro de maldade e crueldade e ter a vida que na verdade, merecia! »
[inventado e continuará]

quinta-feira, setembro 29

Nem perdida nem achada, II


« 2
A adolescência foi uma fase na minha vida que me foi tirada. Obrigaram-me a saltar para o outro lado da margem e a queda? Bem, podia ter sido pior … podia ter morrido! É assim que penso, morrer é pior e na verdade, é. Venho por este meio contar a minha história de vida e não venho em busca de glória ou da pena das outras pessoas, apenas com intenção de divulgar que 'ninguém está a salvo' e que 'não se pode confiar em ninguém, sem ser em nós próprios'. Como já referi, era pura e inocente! Vestidinho branco, sabrinas, cabelo imaculado, comprido e de cor de mel. Ainda hoje, sinto o toque dele nos meus cabelos e revejo o olhar confuso do Jen. Eu acreditei que ele me amava e ainda hoje, acredito. E porquê? Ele protege-me. Agora, chamem-me louca mas é verdade, neste azar encontrei o amor … um amor que é imprevisto! Ninguém poderia acreditar e apenas acharia que era apenas amor da parte da dançarina de cabaret chamada Cassie e na verdade, eu vi-a como ele me olhava e vi o seu olhar de sofrimento quando ele me entregou ás mãos do pai. Por vezes, tenho estes momentos embriagados em que acredito piamente que o Jen me ama e quando o efeito passa, teço um ódio irracional por ele pois ele simplesmente, foi o culpado e principalmente, o ladrão da minha adolescência, dos meus sonhos e for fim e não com menos importância, do meu corpo. O dia acaba e sinto nojo de mim mesma e nem mil banhos me tiram a sensação de sujidade e na verdade, é a minha alma que está suja e poluída. Prometi a mesma que apenas dançaria mas quando o dinheiro começou a faltar, fiz o pior que se pode fazer – traí a minha palavra! O pior não era de facto fazer sexo e ser paga por isso mas sim porque fiz uma promessa a mim mesma e as circunstâncias da vida, fizeram-me quebrá-la! Não culpo de todo o que me rodeia pois sei bem que quota parte da minha desgraça é minha e a outra é o do Jen, o homem que eu amo. Há dias em que tento persuadi-lo a ajudar-me a fugir mas ele é tão submisso ao pai, tanto ou mais que eu, sendo que a única diferença é que, sou submissa ao Jen e nunca lhe cobrei dinheiro pelos momentos que passávamos juntos ás escondidas do pai porque os sentimentos não têm preço e o corpo de uma mulher é um preço negociável. E eu sei o meu preço, sei o quanto o meu corpo é desejado. Sei que umas roupas menores ajudam a umas gorjetas simpáticas e também sei que o cabelo solto a libertar o seu cheiro é um ponto extra para os pervertidos mas é preciso ter cuidado porque mesmo neste antro eu não estou a salvo. Já fui alvo de situações em que o controlo passou a ser de quem paga e quando assim é, nunca sabemos o que esperar. E já não é a primeira vez em que sou espancada porque há homens para tudo e nunca sabemos o que são até o mostrarem mas em todos estes momentos, fui salva pelo Jen. Não poderíamos apresentar queixa contra os clientes porque eram habituais e principalmente, porque o cabaret fecharia. À luz do dia é um bar com decoração estilo cabaret em que até pais respeitosos de famílias de classes altas frequentam para o café da manhã pois fica a 5 minutos do trabalho. À noite, o bar Energia têm dançarinas mas esconde os quartos na cave. Separados por paredes e equipados por camas de casal e não poderiam ser decorados de outra maneira: colchão de cetim vermelho (que cliché), mesas de cabeceira estilo Manuelino que escondem as mais diversas fantasias e por fim, não muito importante, o véu que cai sobre a cama, dando a sensação de um sonho de princesa mas na verdade, é só para maravilhar a vista de quem paga pelo corpo das melhores bailarinas do Energia. Não era a única a ter o mesmo serviço. Ao todo, éramos dez raparigas. Todas diferentes mas com a mesma história: seduzidas pelo Jen e retiradas aos pais mas só eu, a Cassie é que não deixou de o amar. Quando passei a viver nas mãos deles, havia duas raparigas da mesma idade que eu. A Lila e a Shelly. Tinhamos o mesmo sonho: dançar ballet. Desde que nos vimos pela primeira vez que nos apoiamos incondicionalmente e quando conseguir sair daqui, caso saía sozinha, nunca as deixarei para trás! Prometemos entre nós que voltaríamos para buscar quem, de nós ficasse para trás. A Lila era muito bonita. Alta, corpo esbelto, olhos grandes e azuis, cabelo preto e liso. Uma deusa. O coração do homem que a vislumbra-se batia mais depressa ao vê-la dançar. A Shelly, bem a Shelly tinha traços russos, os quais herdou do avô e possuía um cabelo dourado, um sorriso que nos transmitia mistério e curiosidade e além disso, uma cor branca que ela não gostava muito e que em segredo, disfarçava com blush. Além da sua beleza invejável, é uma mulher inteligente e dotada de um humor negro enquanto que a Lila é a típica mulher que fantasia e adora contos em que começam com o típico 'Era uma vez' e acabam com o 'Fim' e há anos que ela me confidencia que sonha e ansia com toda a sua força interior pelo beijo do príncipe encantado que a retirará deste sono profundo em que é uma bailarina de cabaret e paga pelo sexo. Eu, Cassie sou a mais realista e porque sei que quando sair deste lugar será por mérito próprio e não porque um homem me salvou das garras do lobo mau pois acredito piamente que por baixo da pele de cordeiro, vive um lobo mau. Partilho do mesmo tipo de humor com a Shelly, o que faz com que partilhemos mais e não pondo de parte a Lila. Os turnos por vezes, são diferentes e à vezes em que enfrentamos a noite completamente sozinhas e apenas temos que contar connosco e é nessas noites que o meu ódio por ti aumenta, dear Jen. É nestas noites em que tenho momentos de fraqueza e lágrimas borram a pintura e contornam as minhas bochechas de menina. Batem à porta, é o Jen. Avisa-me que o meu melhor cliente chegou. Está na hora de corrigir a maquilhagem, responder com a voz limpa que « se ele me quer, que espere », salientar o decote e praticar o sorriso, o olhar sedutor ao espelho e puxar pela auto-confiança que entretanto me fugiu, puxar por ela e colocá-la a cem por cento. Estava na hora de colher o que me obrigaram a plantar. »
[inventado e continuará]

quarta-feira, setembro 14

Nem perdida nem achada

« 1
Eu tomo o caminho que acho melhor para mim. Aquele cheio de pedras e percalços, sim esse mesmo. Eu deixo os meus pés andarem por elas ... deixo o meu corpo sofrer para que eu aprenda com os erros. É um pouco masoquista, não acham? Prefiro não ver por esses lados! Eu coloco o corpete preto com rendas rosa-choque, as plumas pretas e a maquilhagem sombria, de modo a que quando me vejam na rua de dia não me reconheçam ... as meias, são colocadas cuidadosamente para as não rasgar. Sempre quis ser dançarina mas não neste antro de pecado! Sempre quis dançar num teatro, ballet. Sempre quis deixar uma multidão imensa boquiaberta com o meu talento mas acabei neste antro e a culpa foi do meu infortunado berço! Cresci e fui criada naquelas ruelas perdidas em Angola. Perdi-me e achei-me em Lisboa perto de um teatro ... aonde acabamos a morar depois de o meu pai fugir de quem 'nos queria mal'! Tinha 15 anos e a teimosia era ainda mais acentuada que hoje. Sempre tive muita flexibilidade e andava sempre a cirandar e a inventar coreografias para a música que tocava na minha cabeça e acreditem, não falhava um tempo! O meu tempo de inocência acabou com aqueles olhos azuis! Fui trazida para este lugar e aqui estou, obrigada a dançar para homens gordos, sem cheta e sempre a resmungarem! Aquele rapaz atraiu-me. Olhos azuis profundos, eu perdia-me naquele olhar ... corpo bem definido e musculado e bem, deixei-me encantar ao primeiro olhar porque aquela sensação era nova para mim e eu nova demais para ela! Um dia conheci o pai daquele rapaz que me levou o coração e foi o pior erro da minha vida! Eu devia ter virado a cara aquele rapaz mas já era tarde demais! Eles eram uma dupla. O filho seduzia miúdas inocentes com talento para dançar e o pai obrigava-nos a dançar naquele antro com o argumento de 'muito mal seria feito aos que mais gostavamos' e ironicamente, naquele momento ... eu gostava mais do Jen do que de mim própria e fiquei cega com a dor de ter sido enganada pela família que nem pensei neles! Cheguei a achar que o pai dele é que o obrigava a esta vida mas com o passar dos anos e de estar trancada naquele antro, percebi que o Jen gostava tanto daquilo como o pai! O meu nome é Cassie, artistico claro e o meu sonho é ser bailarina. »