Não me chega o que ferve em mim. Tenho que absorver tudo e mais alguma coisa. Tornar o sofrimento meu, lidar e devolver de volta a quem pertence. Sem dor. Tudo resolvido como uma prenda no natal. Tenho que parar de fazer isso. A longo prazo, vai tornar-me frágil ou forte.
quinta-feira, abril 17
terça-feira, abril 15
desassossego XXV
112.
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’ complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente... É de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa
quarta-feira, abril 9
Quando uma música fala por nós.
É bom ser teu amigo mas igualmente bom ser teu amante
Cantiga de Amigo, B Fachada
sábado, abril 5
domingo, março 30
domingo, março 23
sexta-feira, março 14
«Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo»
al berto
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