domingo, março 24

desassossego

32.
     Sinfonia de uma noite inquieta
    
     Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser.
     Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os vidros para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo, calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de Deus).
     E, de repente - nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade -, o vento assobiava no intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas agitações na altura. Depois a noite fechava-se como um alçapão, e um grande sossego fazia vontade de ter estado a dormir.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

(Decidi trazer, de novo, um pouco de Pessoa para o meu canto.
Espero que aproveitem cada palavra)

1 comentário:

Inês disse...

grande homem! adorei.
r: obrigada, anjinho.