segunda-feira, abril 1

desassossego VI


22.
     A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha  alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
     Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
     Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
     Deus é o existirmos e isto não ser tudo.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

1 comentário:

Cláudia S. Reis disse...

Sempre grande o Fernando Pessoa! E estou muito curiosa quanto a este livro. Já ouvi falar tanto dele que acho que não vou conseguir resistir!