terça-feira, abril 2

desassossego VII


34.
     Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito, então, parece-me a eternidade.
     Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.
     Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e obsoletos, também nos liberta das ideias generosas e das preocupações sociais - manipansos também.
     Encontrar a personalidade na perda dela - a mesma fé abona esse sentido de destino.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

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